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As empresas estão comprando IA antes de entender seus próprios problemas

Álvaro de Paula Almeida
01 de jul. de 2026
T|Fonte:18px
4 min de leitura
As empresas estão comprando IA antes de entender seus próprios problemas

Nos últimos meses, participei de dezenas de reuniões em que a inteligência artificial apareceu como pauta principal. Curiosamente, em muitas delas, a conversa começava da mesma forma: “precisamos implementar IA”. Minha pergunta normalmente é simples: “para resolver qual problema?”. E é exatamente nesse momento que o silêncio aparece. 

Não porque as empresas não enxergam valor na inteligência artificial, mas porque muitas ainda estão invertendo a ordem natural das coisas. Estão procurando uma tecnologia antes de compreender claramente qual dor precisam resolver. 

Quando os ERPs começaram a ganhar espaço no mercado, as empresas não compravam sistemas porque eram modernos. Compravam porque precisavam controlar operações, integrar departamentos, reduzir retrabalho e melhorar a gestão. A tecnologia era o meio, o problema era o ponto de partida. Com a IA, estamos assistindo ao movimento contrário. Muitas organizações querem implementar inteligência artificial porque entenderam que existe uma transformação acontecendo, mas ainda não definiram qual processo precisa melhorar, qual decisão precisa ser acelerada, qual gargalo precisa ser eliminado ou qual oportunidade está sendo perdida. Sem essa clareza, qualquer projeto corre o risco de se tornar apenas uma iniciativa cara e difícil de justificar. 

O fascínio pela ferramenta está escondendo a discussão mais importante. A pergunta mais relevante hoje não é “qual IA vamos usar?”, mas sim “quais decisões poderiam ser melhores dentro da nossa empresa?”. Porque, no final do dia, toda iniciativa de inteligência artificial deveria gerar mais produtividade, mais previsibilidade, mais velocidade, mais margem ou mais competitividade. Se nenhum desses indicadores melhora, provavelmente não estamos falando de um projeto de negócio, mas apenas de uma implementação tecnológica. 

Existe outra questão que muitas empresas ignoram. Inteligência artificial não cria qualidade onde ela não existe. Se os dados estão desorganizados, se os processos não são confiáveis e se a informação está fragmentada, a IA apenas vai acelerar um problema que já existia. Por isso, acredito que os dados são hoje um dos maiores ativos das organizações, mas apenas possuir dados não basta. Eles precisam estar estruturados, contextualizados, acessíveis e conectados à realidade do negócio. Sem isso, não existe inteligência, existe apenas volume. 

Ao longo da minha trajetória, percebi que empresas raramente fracassam em inovação por falta de tecnologia. Elas fracassam por falta de alinhamento. Muitas vezes a liderança quer inovação, a operação quer estabilidade e o time quer produtividade, e ninguém definiu qual resultado deve ser alcançado. Nesse cenário, qualquer iniciativa perde força, pois a inovação deixa de ser uma estratégia e passa a ser apenas mais um projeto. E projetos sem propósito dificilmente sobrevivem. 

Acredito que a inteligência artificial vai transformar profundamente a forma como as empresas operam, mas não porque ela substitui pessoas, e sim porque ela amplia a capacidade humana de compreender cenários, identificar oportunidades e tomar decisões melhores. 

O futuro não pertence às empresas que possuem mais tecnologia, mas às empresas que conseguem conectar pessoas, processos, dados e inteligência. A tecnologia é apenas uma parte dessa equação. 

Sempre que converso com executivos sobre transformação digital, proponho uma reflexão simples. Qual decisão dentro da minha empresa demora mais do que deveria? Qual problema recorrente ainda não conseguimos resolver? Quais dados já possuímos e ainda não estamos utilizando de forma inteligente? As respostas normalmente apontam o caminho com muito mais precisão do que qualquer apresentação de tecnologia. 

Talvez o maior equívoco do mercado neste momento seja acreditar que a transformação começa pela inteligência artificial. Na minha visão, ela começa muito antes, ela começa pela compreensão profunda do negócio. Porque a melhor IA do mundo não consegue resolver um problema que a empresa ainda não conseguiu definir. E talvez essa seja a pergunta mais importante da atualidade: sua empresa está procurando inteligência artificial ou está procurando uma forma melhor de tomar decisões? 

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Álvaro de Paula Almeida

Diretor de inovação · InformAction

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